domingo, 2 de março de 2008

o samba comeu
ao largo chamou
rendeu tanta bamba
que até chuva cambou
fardo ruim ter idiotas

lado que azeita à nado

transversa o baque

da estupidez tamanha

de tanta tez que embrulha

até rebrotados pudores

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

chuvinha boa
enternece só


invista e vai
frente bem-te-vi


embesta zen contra

canta 'a ti vi bem'
invertida viola, mas
esquerda o espelho antes

uma mão duas

e grita como
tiver - de ave -
se a ver

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

venta cor
tina voa
num giro sal
taram a toa..i
lha de salada

excrupulam
pires até reco
rtarem no solo

tomba líquida
sonora tem
pèra sala
vagem cena

sombra de ceia
- enfarta a mesa -
tremei patas!

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

man
íaca
fronte
iriça
suba
ítaca
move
desça
ver
ter
ça
par
cela
vasa
pra
água
meia
sol
eira
bra
bah
beira
sal
dada
sang
üínea
mana
chama
me
afoga
gana
em
pról
d'ocê
etária
plana
diárida
sobre
mesa

sábado, 24 de novembro de 2007

terça-feira, 20 de novembro de 2007

centavos..
ânsia dos pulsos
a tilintar contas,
moedas-toque
- tô que tô!.. por cinco?
um zinco do zico! pô..!
(vislumbra retalhos de rua)
lá dois..
(nem moída pena)
lidas pé - dras latas
de vida fagulhas
- ida, desgramada,
desde a praça
à matriz vizinha -
sentada

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

altivo,
entregue ao palato,
paulatinamente e
atento à carne
palita - meio sorriso
- os dentes

destes,
doídos de palito,
rangidos ruminam
- tentativa rupestre -
o traçado
mal feito

feio,
sangue na alface,
expulsa à gengiva
tactos nacos em
acolhedora cuspida
- viva!

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

"Sabe no fundo eu sou um sentimental
todos nós herdamos no sangue lusitano
uma boa dosagem de lirismo além da sífilis, é claro.

Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas
em torturar esganar trucidar
meu coração fecha os olhos e
sinceramente chora..

Meu coração tem um sereno jeito
e as minhas mãos o golpe duro e presto
de tal maneira que depois de feito
desencontrado eu mesmo me contesto.

Se trago as mãos distantes do meu peito
é que há distância entre a intenção e o gesto.
E se meu coração nas mãos estreito
me assombra a súbita impressão de um incesto.

Quando me encontro no calor da luta
ostento a guda empunhadora à proa.
Mas o meu peito se desabotoa
e se a sentença se anuncia bruta
mais que depressa a mão executa
pois que senão o coração perdoa."

terça-feira, 16 de outubro de 2007

à boca, me busco nos teus beijos..
clareio de vento a branca pele,
desde o lábio - sossego no aperto
dos olhos, dois sonhos in-vento..
sei-os, me puxam.. vôo solto
- montanha acima - levando amoras
de presente/distância do pomar..

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Quadro Completo da Primavera

Folhinhas.
Linhas. Zibelinas só-
zinhas.

ISTCHÉRPIVAIUCHAIA CARTINA VIESNI
Listótchki.
Póslie strótchec lis-
tótchki.

(Vladímir Maiakóvski - 1913
trad. Augusto e Haroldo de Campos)

de novo: intervalos do sono

o que olha
sempre cessa:

dia ou mundo!

o único é
ininterrupto -

por sua face
a alma desliza?

: cinzas!

e a luz não se divisa
do que sempre olha! -

cinzas movediças:

fora da luz

desfolham-se

(Guenádi Aigui - 1966
trad. Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Goya

Sou Goya!
Órbitas-covas cavou-me o inimigo, revôo de corvos na gula de espólios.
Sou guerra.
Sou grito
de angústia, burgos em fogo no guante nevado dos anos quarenta.

Sou garra
da fome.
Sou gorja
de mulher garroteada, cadáver-badalo dobrando numa praça calva...
Sou Goya!
Galas
da vingança! Devolvo a oeste de um golpe as cinzas ingratas do hóspede!

E gravo no céu da memória estrelas fixas como cravos.

Sou Goya.

(Andréi Vozniessiênski - 1960

trad. Haroldo de Campos)